Referência nacional em advocacia empresarial, Silvana Simões Pessoa construiu uma carreira pautada pela estratégia, governança e segurança jurídica.
À frente da Advocacia e Assessoria Simões Pessoa e presidente da Associação Brasileira de Advogados de Empresas de Consórcio (ABAEC), tornou-se uma das vozes mais respeitadas na defesa de um jurídico que vai além da interpretação da lei para impulsionar negócios, fortalecer empresas e gerar valor.

Mas sua história transcende o universo corporativo. Após enfrentar o câncer de mama, Silvana passou a enxergar a vida e a liderança sob uma nova perspectiva. A experiência trouxe ainda mais sensibilidade, coragem e propósito à sua atuação, transformando sua trajetória em uma inspiração para mulheres que conciliam carreira, família e desafios pessoais.

Nesta edição especial em alusão ao Outubro Rosa, a Revista Perfil apresenta uma entrevista que une excelência profissional e força humana. Silvana compartilha como a superação da doença fortaleceu sua missão de liderar com propósito, inspirar outras mulheres e mostrar que a verdadeira liderança também nasce da capacidade de recomeçar.

Confira!
“O jurídico verdadeiramente estratégico não entra apenas quando existe um problema. Ele participa da construção do futuro da empresa.”

Sua trajetória demonstra que o jurídico pode ser muito mais do que uma área de suporte. Em que momento essa visão estratégica passou a fazer parte da sua atuação profissional?

Costumo dizer que nunca enxerguei o Direito apenas como uma ferramenta para resolver conflitos. Mas essa percepção ganhou outra dimensão quando passei a ocupar posições executivas e a participar diretamente das decisões empresariais.
Foi ali que compreendi que o jurídico não deveria estar apenas no final da mesa, analisando uma decisão já tomada. Ele precisava estar à mesa desde o início.
Quando o advogado conhece verdadeiramente o negócio, deixa de ser apenas aquele que aponta riscos e passa a ajudar a construir caminhos. Antecipa cenários, estrutura operações, protege relações, identifica oportunidades e oferece segurança para que decisões importantes possam ser tomadas.
Ao longo da minha carreira, aprendi a fazer uma pergunta que considero essencial: não basta saber se algo é juridicamente possível; é preciso compreender qual será o impacto daquela decisão sobre o negócio, as pessoas, a reputação e o futuro da organização.
Essa visão orienta hoje a Advocacia e Assessoria Simões Pessoa.
Acredito em um jurídico que conhece a lei, evidentemente, mas que também conhece estratégia, gestão, governança e pessoas.
O jurídico verdadeiramente estratégico não entra apenas quando existe um problema. Ele participa da construção do futuro da empresa.

À frente da Advocacia e Assessoria Simões Pessoa, quais estratégias têm sido determinantes para gerar eficiência, previsibilidade e segurança aos seus clientes?

Tudo começa pelo conhecimento do negócio.
Não acredito em advocacia empresarial exercida à distância da realidade do cliente. Para orientar uma empresa de maneira estratégica, precisamos compreender sua operação, seu mercado, sua cultura, seus processos, seus indicadores, seus riscos e, sobretudo, seus objetivos.
Por isso, buscamos uma atuação cada vez mais integrada entre jurídico, gestão de riscos, governança, compliance, tecnologia e inteligência de dados.
Um processo judicial, por exemplo, não deve ser analisado apenas individualmente. Quando observamos uma carteira de forma estruturada, conseguimos identificar padrões, causas recorrentes, vulnerabilidades operacionais e oportunidades de prevenção.
E isso muda completamente o papel do jurídico.
Deixamos de administrar apenas consequências para atuar também sobre as causas.
Tecnologia e dados têm sido fundamentais nesse processo, porque trazem previsibilidade, permitem mensurar riscos e transformam informação jurídica em inteligência para a tomada de decisão.
Para mim, eficiência jurídica não significa simplesmente ganhar processos ou reduzir contingências.
Significa ajudar o cliente a tomar decisões melhores hoje para ter menos problemas amanhã.
“Segurança jurídica não é obstáculo ao desenvolvimento econômico. É infraestrutura para que ele aconteça.”
O setor de consórcios vive um momento de expansão no Brasil. Como presidente da ABAEC, quais desafios jurídicos e oportunidades a senhora enxerga para esse mercado?
O consórcio conquistou uma posição muito relevante na economia brasileira e acredito que ainda exista um enorme potencial de desenvolvimento.
Mas crescimento traz responsabilidade.
Como presidente da Associação Brasileira de Advogados de Empresas de Consórcio — ABAEC — tenho acompanhado um setor que se moderniza rapidamente e que precisa conciliar expansão, inovação e segurança jurídica.
Temos desafios importantes relacionados à evolução regulatória, proteção do consumidor, governança, tecnologia, proteção de dados, prevenção a fraudes, judicialização e novas formas de contratação e relacionamento com o cliente.
Ao mesmo tempo, temos uma oportunidade extraordinária de fortalecer juridicamente todo esse ecossistema.
Acredito muito no diálogo entre administradoras, advogados, Poder Judiciário, órgãos reguladores e demais participantes do sistema. Um mercado sólido se constrói quando existe conhecimento técnico, previsibilidade regulatória e compreensão das particularidades da atividade.
É também uma das missões que procuro desenvolver na ABAEC: criar espaços de estudo, debate e construção jurídica capazes de contribuir efetivamente para a evolução do setor.
Não podemos enxergar o Direito apenas como um conjunto de limites impostos ao mercado.
Segurança jurídica não é obstáculo ao desenvolvimento econômico. É infraestrutura para que ele aconteça.
E quanto mais relevante se torna o sistema de consórcios para a economia brasileira, maior deve ser nosso compromisso com credibilidade, transparência e segurança.
Neste Outubro Rosa, sua história ganha um significado ainda mais especial. Como o diagnóstico do câncer de mama transformou sua forma de enxergar a vida e a carreira?
Receber um diagnóstico de câncer muda a nossa relação com o tempo.
Eu sempre vivi intensamente. Trabalho, empresas, família, projetos, responsabilidades, decisões. Sempre fui uma mulher de movimento, acostumada a resolver, organizar e seguir em frente.
De repente, a vida me colocou diante de algo que eu não poderia simplesmente administrar como administrava tantas outras situações.
E foi preciso aprender outro tipo de coragem.
A coragem de aceitar limites. De receber cuidado. De compreender que nem tudo está sob nosso controle. E, principalmente, de olhar para mim.
Atravessei o tratamento procurando preservar aquilo que sempre fez parte de mim. Continuei trabalhando dentro do que era possível, continuei fazendo planos, continuei participando da vida da minha família e nunca deixei de pensar no futuro.
Mas a experiência inevitavelmente transforma.
Passei a perceber com muito mais clareza que o tempo é nosso patrimônio mais precioso.
Sucesso deixou de estar relacionado apenas ao que conseguimos construir profissionalmente. Hoje, para mim, sucesso também significa presença. Estar com as pessoas que amo. Acompanhar minha família. Construir memórias. Viajar. Celebrar. Ter projetos, mas também ter tempo para viver aquilo que construí.
O câncer não diminuiu minha vontade de realizar. Talvez tenha feito exatamente o contrário.
Só mudou a medida das coisas.
Eu continuo querendo construir muito. Mas hoje sei que nenhuma conquista vale a ausência da própria vida.
Existe uma Silvana antes e depois do câncer? Quais foram as principais mudanças na sua forma de viver e liderar?
Existe uma Silvana depois do câncer, sem dúvida. Mas ela não nasceu do zero.
A mulher que existia antes continua aqui: determinada, inquieta, apaixonada pelo trabalho, pelas pessoas, pelos projetos e pelos desafios.
O que mudou foi o olhar.
Passei a escolher melhor onde deposito minha energia. Aprendi que nem toda batalha precisa ser travada, que nem toda urgência é realmente urgente e, talvez o mais importante, que liderança não significa carregar tudo sozinha.
Acredito que me tornei uma líder ainda mais atenta às pessoas.
Resultados são importantes — sempre foram e continuarão sendo. Mas nenhuma organização é verdadeiramente sustentável se não compreender que por trás de indicadores, processos e metas existem pessoas.
Também passei a me permitir viver com mais presença.
Quero continuar empreendendo, advogando, participando de conselhos, construindo projetos e contribuindo para instituições nas quais acredito. Ainda tenho muitos sonhos profissionais.
Mas quero também acompanhar meus filhos, meus netos, minha família. Quero viajar, aprender coisas novas, celebrar conquistas e construir memórias.
Antes eu talvez acreditasse que, em algum momento, a vida ficaria mais tranquila e então haveria tempo para tudo isso.
Hoje sei que esse momento não existe.
A vida não começa quando terminamos nossas obrigações. Ela está acontecendo enquanto as cumprimos.
Muitas mulheres adiam seus próprios cuidados por causa da rotina intensa. Que mensagem gostaria de deixar sobre prevenção, diagnóstico precoce e autocuidado?
Existe algo muito profundo na forma como muitas mulheres foram ensinadas a viver: aprendemos desde cedo a cuidar.
Cuidamos dos filhos, dos pais, dos companheiros, das empresas, das equipes, dos clientes. Administramos necessidades, expectativas, agendas e problemas.
E, frequentemente, somos a última pessoa da nossa própria lista.
Depois da experiência que vivi, existe uma mensagem que faço questão de repetir: cuidar de si não é egoísmo. É responsabilidade com a própria vida e também com aqueles que amamos.
Façam seus exames. Mantenham acompanhamento médico. Conheçam seu corpo. Não normalizem sinais que merecem investigação e não permitam que uma agenda cheia seja motivo para adiar o cuidado.
A prevenção e o diagnóstico precoce são fundamentais.
Mas autocuidado também significa outra coisa: aprender a estabelecer limites, descansar sem culpa, pedir ajuda quando necessário e aceitar que força não significa suportar tudo silenciosamente.
Gostaria que o Outubro Rosa fosse compreendido não apenas como um mês de conscientização, mas como um chamado para uma mudança de comportamento.
Nós, mulheres, precisamos aprender a ocupar também o primeiro lugar na nossa própria agenda.
“O câncer não diminuiu minha vontade de realizar. Talvez tenha feito exatamente o contrário. Só mudou a medida das coisas.”
Se pudesse resumir sua mensagem neste Outubro Rosa em uma única frase, qual seria?
“Cuide de você com o mesmo amor, dedicação e coragem com que sempre cuidou de todos — porque estar presente na sua própria vida também é uma forma de amor.”
Governança, compliance e ESG passaram a ocupar espaço central nas organizações. Como esses pilares impactam diretamente a competitividade das empresas?
Governança, compliance e ESG deixaram de ser temas periféricos para se tornarem componentes da própria estratégia empresarial.
Governança significa criar estruturas que permitam à organização decidir melhor, estabelecer responsabilidades, gerir riscos e preservar sua capacidade de crescer.
Compliance vai muito além do cumprimento formal de normas. É cultura, integridade, coerência e proteção da reputação.
E ESG amplia essa responsabilidade ao exigir que as organizações compreendam os impactos ambientais, sociais e de governança relacionados às suas decisões.
Tudo isso interfere diretamente na competitividade.
Empresas estruturadas geram confiança. E confiança tem valor econômico.
Ela influencia relações com investidores, instituições financeiras, clientes, fornecedores, colaboradores e com o próprio mercado.
Por isso, gosto de dizer que governança não deve surgir como consequência do crescimento.
Governança é uma das condições para crescer com segurança.
O desafio não é apenas construir empresas maiores. É construir empresas melhores, capazes de atravessar mudanças, crises e gerações.
Em sua visão, quais características definem um líder preparado para conduzir empresas em um ambiente de constantes mudanças regulatórias e econômicas?
O líder contemporâneo precisa conviver com algo que nem sempre é confortável: a certeza de que não terá todas as respostas.
O mundo muda rapidamente. Regulação, economia, tecnologia, comportamento e modelos de negócio estão em transformação permanente.
Por isso, acredito que liderança hoje exige, antes de tudo, capacidade de aprender.
Um bom líder precisa ter firmeza para decidir e humildade para ouvir. Precisa ter convicção, mas não pode se apaixonar pelas próprias certezas. Precisa compreender números e estratégia sem perder a capacidade de compreender pessoas.
E precisa ter coragem.
Não apenas a coragem de tomar grandes decisões, mas também a de reconhecer um erro, mudar de direção, admitir que alguém sabe mais e cercar-se de pessoas melhores do que ele em determinadas áreas.
Acrescentaria ainda duas palavras: integridade e coerência.
Porque liderança não se revela nos discursos.
A verdadeira liderança aparece quando a decisão é difícil, quando existe pressão e quando fazer o certo tem um custo.
É nesses momentos que as pessoas descobrem quem realmente está liderando.
A tecnologia e a inteligência artificial estão transformando a advocacia. Como a inovação pode fortalecer, e não substituir, o papel estratégico do advogado empresarial?
A inteligência artificial já mudou a advocacia. Essa transformação não pertence mais ao futuro.
E vejo isso como uma extraordinária oportunidade.
A tecnologia pode processar volumes imensos de informação, identificar padrões, automatizar tarefas, melhorar controles, apoiar análises e liberar o profissional de atividades repetitivas.
Isso permite que o advogado concentre energia justamente naquilo em que pode gerar mais valor.
Mas existe uma diferença fundamental entre ter informação e exercer julgamento.
Uma ferramenta pode identificar riscos. O advogado precisa compreender quais riscos realmente importam naquele contexto.
Pode organizar precedentes. O advogado precisa construir estratégia.
Pode auxiliar na elaboração de documentos. Mas confiança, negociação, responsabilidade, sensibilidade e compreensão das consequências de uma decisão continuam pertencendo ao campo humano.
Por isso, não vejo inteligência artificial e advocacia como forças concorrentes.
O que acredito que acontecerá é uma separação cada vez maior entre profissionais que utilizam tecnologia apenas como ferramenta de produtividade e aqueles que conseguem transformá-la em inteligência estratégica.
A inteligência artificial não elimina o advogado estratégico. Ela elimina espaço para uma advocacia que não agrega valor.
E isso nos obriga a evoluir.
“Legado não é apenas patrimônio. É reputação, conhecimento transmitido, oportunidade criada e a cultura que permanece.”
Que mensagem deixaria aos empresários que desejam construir negócios mais sólidos, preparados para crescer de forma sustentável e deixar um legado para as próximas gerações?
Eu diria algo que aprendi observando empresas ao longo de muitos anos: não espere seu negócio se tornar grande para começar a prepará-lo para o futuro.
Muitas empresas extraordinárias nascem da coragem, da intuição e da capacidade de trabalho de seus fundadores.
Mas aquilo que faz uma empresa nascer nem sempre é suficiente para fazê-la atravessar gerações.
Em algum momento, o conhecimento precisa deixar de estar apenas na cabeça do fundador e passar a pertencer à organização.
É preciso construir processos, governança, controles, gestão de riscos, sucessão e, sobretudo, cultura.
E talvez exista uma pergunta ainda maior: o que queremos que permaneça depois de nós?
Hoje penso muito sobre isso.
Passei grande parte da minha vida preocupada em construir. Construir carreira, empresas, projetos, relações, instituições.
Depois de tudo o que vivi, comecei a pensar também sobre permanência.
Legado não é apenas patrimônio. Não está apenas no tamanho de uma empresa ou nos resultados de um balanço.
Legado é reputação. É conhecimento transmitido. É oportunidade criada. É a cultura que permanece. São as pessoas que cresceram conosco e os caminhos que ajudamos a abrir.
Quero continuar construindo muito. Ainda tenho projetos, ambições e sonhos.
Mas hoje existe uma diferença importante.
Não quero apenas deixar aquilo que construí. Quero deixar pessoas capazes de continuar construindo.
Talvez essa seja, para mim, a forma mais bonita de permanência.
Silvana Simões Pessoa
Fotos: @trumpas

