Crescer em duas paisagens distintas - a metrópole de São Paulo e o interior campestre de Brotas - moldou em Cristina Bertelli uma visão incomum do mundo.
De um lado, a velocidade urbana, os negócios, a cultura agitada; do outro, os valores da terra, da família e da simplicidade. Esse equilíbrio entre contrastes tornou-se marca registrada de sua trajetória pessoal e profissional. Com esses aprendizados ela encara com naturalidade conversas com govenadores, ministros, executivos, pesquisadores, lideranças de associações e produtores rurais de pequeno, médio e grande porte.

Filha do Dr. Bertelli, médico oncologista e cirurgião de cabeça e pescoço, e de Dona Edna, professora e designer de interiores, Cristina cresceu em uma família onde o conhecimento, a organização e o senso de responsabilidade eram pilares cotidianos. A convivência com as irmãs - uma engenheira e outra veterinária - e o irmão, também cirurgião, cultivou desde cedo o valor da cooperação e do esforço conjunto. E são esses os valores que ela passa para a filha com agora 16 anos.
O início da caminhada
Em Brotas, entre árvores abundantes e conversas demoradas com os avós, Cristina aprendeu a ouvir com atenção e a respeitar os ciclos da natureza. Em São Paulo, absorveu a inquietação criativa e o desejo de transformação. Era o início de uma formação única que uniria sensibilidade com estratégia.

Ainda menina, acompanhava o pai em feiras agropecuárias e nutria fascínio pelo comportamento animal e pela vida no campo. A paixão pelo agro foi despertada de forma definitiva nos anos 1980, quando o professor Luiz Roberto Furlan, da Zootecnia de Botucatu, percebeu seu brilho nos olhos durante um curso sobre confinamento bovino. Incentivada, ingressou na UNESP e mergulhou com entusiasmo em áreas como nutrição, genética e manejo de pastagens.

Seu primeiro trabalho como zootecnista foi na propriedade da família, entre Brotas e Dois Córregos. Atuando diretamente com pecuária de corte e nutrição animal, Cristina compreendeu, na prática, a complexidade e a beleza do trabalho no campo. Mas sua veia de gestora não tardou a se manifestar. No entanto, podemos observar que com apenas dois empregos distintos (contudo interligados por rodarem em torno do agro) ela seguiu a percepção clássica de não trocar o emprego cada três anos - como observamos na prática dos profissionais das gerações mais novas.

A primeira etapa profissional – 11 anos de feiras e eventos
Na década de 1990, ingressou na organização de grandes eventos agropecuários, coordenando feiras como FEICORTE, Expomilk e FEINCO. Com sensibilidade e visão estratégica, transformou esses encontros em experiências completas - combinando negócios, conteúdo técnico e relacionamento. Cristina entendia que o produtor rural buscava, além de informação, pertencimento e conexão com outros atores e as tendências do setor.

Durante sua gestão em eventos como a FEICORTE, Cristina implantou áreas de negócios, espaços técnicos e estratégias de marketing segmentado, internacionalizando a feira e transformando-a em um polo de conhecimento e inovação. Também esteve à frente da Expomilk e da FEINCO, com forte enfoque na experiência do visitante e na qualificação dos conteúdos. Mas não estava satisfeita em atrair produtores de todo o Brasil para um megaevento apenas em São Paulo. Pensando na diversidade das condições de produção e das culturas regionais iniciou o Circuito da FEICORTE passando pelos principais centros da produção pecuária do País.
Sua passagem pelo Centro de Exposições Imigrantes e pela Alcântara Machado consolidou seu prestígio como organizadora de eventos de grande escala. Nessa fase, tornou-se referência em logística, operação e mediação entre expositores, patrocinadores e o público. Seu estilo conciliador e sua capacidade de ouvir o mercado moldaram um legado duradouro.
A segunda etapa profissional – 15 anos como diretora executiva na TV Bandeirantes
Seu defining moment veio com o convite de Jovelino Mineiro e Paulo Saad para integrar o Canal Terraviva, onde foi responsável por projetos especiais e, posteriormente, assumiu a Diretoria Executiva. Ali, iniciou uma verdadeira revolução na comunicação do agro. Mais tarde, no Canal AgroMais, ampliou a presença do setor na mídia nacional, integrando plataformas digitais, modernizando a linguagem e trazendo o agro para o centro das discussões sobre o futuro do Brasil.

Cristina Bertelli, também se destacou como articuladora de iniciativas voltadas à valorização da comunicação estratégica no agro. Por duas décadas no Terraviva e cinco anos no AgroMais, foi responsável não apenas pela direção editorial, mas também pela renovação dos formatos audiovisuais e pelo fortalecimento do jornalismo especializado em questões rurais. Em meio à transformação digital, liderou processos de integração multiplataforma e incentivou novas narrativas, com ênfase em dados, histórias humanas e impacto social.
Nesse período, ampliou a presença da agro-comunicação em fóruns empresariais, universidades e veículos de mídia nacional, tornando-se uma das vozes mais respeitadas do setor. Sua atuação ajudou a mudar a percepção urbana sobre o agro, apresentando o setor como parte indissociável do futuro sustentável do País.
Outro marco de sua trajetória foi a idealização e condução de programas e documentários que deram visibilidade à inovação no campo, à sucessão familiar e à presença feminina em cadeias produtivas tradicionalmente masculinas. O olhar jornalístico de Cristina sempre esteve alinhado com seu compromisso profissional: comunicar não apenas para informar, mas para inspirar.
O destaque do papel da Mulher no Agro
Cristina participou da construção de marcas sólidas, do fortalecimento da imagem do agro e da valorização do papel feminino no setor. Inspiradora e cofundadora do Núcleo Feminino do Agronegócio (NFA), articulou uma das mais influentes redes de mulheres líderes da América Latina. No NFA, atua para inspirar, conectar e formar novas gerações de protagonistas femininas - da propriedade familiar às multinacionais do agronegócio.

Foi durante a organização de muitos eventos e congressos que a Cristina enxergou que, com a exceção da FEILEITE, as mulheres estavam totalmente sub-representadas nas plateias das palestras. Considerando o fato que cerca de 30% dos proprietários de fazendas são do sexo feminino, tanto os formatos de encontros como a escolha dos palestrantes, bem como a insistência que as apresentações sejam menos científicas e mais comunicativas, surgiu uma nova estratégia comunicativa que, posteriormente, inspirou os programas de rádio e TV.
Além do seu envolvimento ativo no NFA, Cristina também ocupa posições de destaque como conselheira do COSAG/FIESP e Diretora de Marketing da ABMRA (Associação Brasileira de Marketing Rural e Agronegócio), defendendo a ética, a inovação e a informação qualificada como pilares da relação entre o agro e a sociedade.
Nestes conselhos promove a ampliação do foco da produção rural em direção da cadeia produtiva de alimentos como um todo. Pois, enquanto o consumidor subestima o papel do pequeno, médio e grande produtor, o setor do agro sobre-estima seu papel específico na longa cadeia de produção de alimentos. Pois, o trabalho no campo ‘apenas’ ocupa 6 a 8% do valor dos produtos que compramos no supermercado. Ela sempre defende que o posicionamento correto na comunicação reforça a credibilidade das mensagens. Assim, e com a devida paciência, o Agro será mais bem compreendido pela Cidade favorecendo visões e ações mais eficientes dos dois lados.
No Núcleo Feminino do Agronegócio, o NFA, Cristina impulsionou projetos de formação em liderança, inclusão geracional e diversidade. Ela acredita que as transformações estruturais do agro passam necessariamente pelo fortalecimento da presença feminina nos conselhos, nas empresas, nas fazendas e nos laboratórios. A partir de encontros, missões técnicas e produção de conhecimento, o NFA se tornou um hub de referência continental.

"A mulher do agro não pede espaço. Ela ocupa com competência. O NFA existe para mostrar o quanto essa presença é essencial para o futuro do Agro brasileiro", defende Cristina.
Hoje, além de mentora de jovens profissionais e conselheira de instituições do setor, Cristina é convidada frequente em congressos, lives e podcasts. Sua habilidade de traduzir complexidade em clareza, seu olhar sempre atualizado e sua forma generosa de liderar a mantêm como referência sólida e inspiradora.
O agro, para Cristina Bertelli, é mais do que um setor — é um organismo vivo que exige sensibilidade, estratégia e coragem.
É exatamente esta visão que ela procura disseminar nas dezenas de encontros com lideranças locais nas principais regiões produtivas. Poucos são os encontros, eventos e feiras que ela não visita para manter o contato com os produtores, técnicos e agrorevendas.
Assim, Cristina pode ser chamada a principal articuladora dos assuntos técnicos, comerciais e de imagem do setor que se torna cada vez mais o pilar principal da economia brasileira. Seu compromisso é com a construção de pontes: entre gerações, entre campo e cidade, entre tradição e inovação.
“Fazer um evento agro de sucesso é como tocar uma fazenda em larga escala: tudo precisa estar no lugar, as pessoas precisam trabalhar em sintonia e o resultado tem que aparecer no final do ciclo”, costuma dizer.
Para além das conquistas institucionais, ela é mãe da Maria Carolina, hoje com quase 16 anos, que considera sua fonte constante de inspiração, orgulho e desafio.

A maternidade, segundo Cristina, aprofundou ainda mais sua capacidade de escuta, resiliência e visão de futuro
Cristina Bertelli é, enfim, uma mulher à frente do seu tempo porque nunca buscou o protagonismo pelo destaque, mas pelo impacto. Ela transforma bastidores em palcos, conhecimento em afeto, e propósito em ação. Sua trajetória inspira porque mostra que é possível liderar com elegância, ouvir com profundidade e comunicar com verdade. Ela plantou ideias e colheu respeito.
Nota pessoal do autor
Se me permitem uma nota pessoal neste perfil: Cristina Bertelli foi, sem dúvida, a principal responsável por meu mergulho no universo do agro. Mesmo sendo um pequeno produtor na Floresta Negra, na Alemanha, foi a visão estratégica, o conhecimento detalhado e a insistência dela que me levaram a compreender - e me apaixonar - pelo maior setor da economia brasileira. A ela devo não apenas informações valiosas, mas uma nova forma de pensar o País.
Cristina Bertelli é, sim, uma mulher à frente do seu tempo. Mas o segredo talvez esteja no fato de que ela nunca quis estar “à frente” para competir ou se destacar. Ela está à frente porque constrói com os outros. E porque sabe que o tempo que realmente importa é aquele que se faz com sentido.
“Seu compromisso é com a construção de pontes: entre gerações, entre campo e cidade, entre tradição e inovação.”
Por Francisco Vila

